"Na hora do almoço, no meio de uma festa de aniversário, senti uma dor estranha no peito.
Não era uma dor de doença, não era nada que eu conseguisse apontar com o dedo e dizer: é aqui, é isto. Era mais como uma pressão, qualquer coisa a apertar por dentro, como se o meu corpo soubesse alguma coisa que eu ainda não sabia. Fiquei sentada à mesa com um prato de comida à frente e as pessoas à minha volta a rir e a falar e eu estava lá, mas não estava, estava em todo o lado e em parte nenhuma ao mesmo tempo.
Quando cheguei a casa ao fim da tarde, a Princesa não veio ter comigo à porta. Ela vinha sempre, todos os dias, durante doze anos, tinha vindo sempre. Ouvia a chave na fechadura e aparecia do nada, como se estivesse passado o dia inteiro à espera daquele momento. Tinha um miado particular para me receber, diferente de todos os outros, um miado que era só meu. Nesse dia, não havia nada. Só silêncio e a casa a parecer maior do que alguma vez tinha parecido.
A minha mãe disse-me com os olhos antes de dizer com as palavras.
Não chorei logo. Acho que o corpo às vezes precisa de tempo para acreditar nas coisas que a cabeça já sabe. Fui ao quarto, sentei-me na cama perto de uma caixa onde estava ela, deitada e sem reação - esperei um pouco na esperança que ela se levantasse e me pedisse mimos como sempre fazia, mas não foi isso que aconteceu. Estava a aconchegada com a sua mantinha cor-de-rosa, e parecia que estava num sono profundo e tranquilo, mas não...ela tinha partido, e eu sabia que nunca mais ia ver.
Durante muito tempo, não consegui aceitar. Eu cresci com ela, partilhei muitos momentos com a minha Princesa, ela era minha companheira, amiga, ela era a minha sombra.
As pessoas dizem que os animais são só animais, como se isso tornasse a dor mais pequena. Mas a Princesa não era só uma gata. Era a que ficava comigo quando eu estava doente. Era a que aparecia sempre que eu chorava, sem eu precisar de chamar, encostava-se ao meu lado sem fazer perguntas. Era a única criatura no mundo que me conhecia mesmo quando eu fingia que estava bem e que ficava na mesma, sem me pedir para ser diferente.
Perder isso não tem tamanho.
O luto de um animal é estranho porque o mundo não pára. No dia seguinte não tinha aulas pois estava de férias, o que significava que não havia testes e trabalhos de grupo e pessoas a perguntar se eu tinha visto aquela série. Resumi o meu dia a ficar deitada a pensar nela e com um buraco no peito que ninguém via porque não se vê, porque não é socialmente aceitável ficar destruída por uma gata durante semanas, meses.
Mas eu fiquei. A coleira que ela usava, começou a ser um acessório que usava e que durante muito tempo só a tirava para tomar banho.
Precisava do meu tempo para aceitar aquela perda tão difícil para mim.
E foi preciso muito tempo, mais tempo do que eu esperava, mais tempo do que achei que fosse normal para chegar ao outro lado. Não ao lado em que a saudade desaparece, porque essa nunca desapareceu, mas ao lado em que já consigo pensar nela sem que doa da mesma forma. Ao lado em que aceitar não significa esquecer, mas sim perceber que ela viveu bem, que foi amada, que o cantinho na cama perto dos meus pés foi dela até ao fim.
Às vezes ainda ouço um barulho em casa e por um segundo - apenas um segundo - penso que é ela.
E já não fico triste com isso, fico quase contente porque acredito que ela virou uma estrelinha e que me guia todos os dias.
Como se ela ainda aparecesse à porta, do seu jeito, para me dizer que está bem.
Passado uns meses adotei outra gata, não com o pressentimento de que esta iria substituir aquela gata preta que ficava todos os dias á minha espera, mas sim com a sensação de que esta precisava de uma casa e de alguém que a amasse como eu amei a Princesa. No final de contas, não é ter de aceitar que aquele animal (ou pessoa) se foi e que isso não vai mudar nada pois também não conseguimos reverter as coisas, mas sim aceitar que ela partiu, mas vamos sempre nos lembrar dela e dos momentos que tivemos juntas. E não temos de ser fortes o tempo todo porque mais tarde ou mais cedo perceber que é a lei da vida e aceitar que o ciclo da vida temos a chegada ao mundo e a partida.
Por muito que nos custe é a Vida a Acontecer."
🌟 Texto de Ana João Ferreira, 1.º TGE:
"Se o mundo fosse quadrado, as pessoas seriam redondas"
"Ouvi esta frase num café, quando passava por entre mesas à procura de uma cadeira vazia, dita por alguém que me era estranho e de uma forma aparentemente casual. No início, não me fez grande sentido, mas foi disruptivo o suficiente para me fazer voltar a este pensamento. Se o mundo fosse quadrado… pessoas redondas? Redondas na sua forma física ou amplas no seu olhar e forma de aceitação? O mundo, em conflito, a adquirir uma forma incapaz de comportar diversidade. Uma diversidade de formas físicas - os altos, os baixos, os gordos, os magros, de estatuto social e económico – os pobres, os ricos, os remediados, de pensamentos, de crenças, de religiões, de partidos políticos, de clubes futebolísticos, de perfis, de pensamentos, de identidades, de géneros, de geografias, de valores. Os bons, os maus, os feios, os bonitos, alinhados nas prateleiras do socialmente correto e aceitável. Pessoas redondas na sua amplitude enquanto seres humanos, a habitar um planeta quadrado, traçado a esquadro e a régua e a caneta de tinta permanente por mãos mais ou menos visíveis suspendendo o mundo da sua liberdade. Uma clara dissonância de formato de um mundo desenhado entre as varas de um espartilho normativo e a base da essência humana que reside no necessário movimento de transmutação de formas para o desenho de geometrias de latitude suficiente para abarcar a aceitação da divergência. Mas, para acolher o que é diferente, é necessária abertura e criação de conhecimento. Um olhar amplo, comunicação, criar pontes entre margens, construir diálogos, negociar, avançar meios caminhos, aceitar a diferença. Despir da pele os (pre)conceitos e investir na interação com os demais seres humanos de uma forma aberta ao novo e à mudança na forma de pensar o mundo. No entanto, aceitar a diferença, não é pensar igual e ter as mesmas ideias... Aceitar é um processo que requer aceitação própria, autoconhecimento, a segurança de acreditar no valor que temos e de se ser capaz de viver em autenticidade e congruência com foco naquilo que somos e menos preocupados com a opinião ou julgamento dos outros que, por vezes, no olham de uma forma quadrada. Teremos, então, pessoas quadradas num mundo redondo? – refleti, enquanto ocupava o meu lugar na cadeira disponível para mim naquele espaço de convívio. Como poderemos ser cidadãos de plenos direitos num mundo que se quer global, respeitando a diversidade e garantindo a aceitação daquilo que somos? Como esbater as formas e desenhar figuras adaptáveis à solidez de um chão que se molda e cresce ao som dos passos que avançam? Como bordar linhas capazes de assumir a forma de em fio condutor que orienta sem limitar, que acolhe, sem enredar, que aceita, sem condenar?
Sentada na cadeira do café, olhei pela janela quadrada e pousando os olhos nos contornos alaranjados do sol redondo que descia sobre o monte percebi que o mundo encontrará sempre a sua forma na transição que o tempo confere aos dias."
🌟 Texto de Leonor Pinha, 1.º TGE:
“Aceitar também é crescer”
"Às vezes, pode ser difícil aceitar que crescemos, aceitar a nossa escola, aceitar que nem tudo é como queremos ou desejamos, aceitar que temos de ser independentes, aceitar que o mundo é como é e não somos nós que iremos mudar isso mesmo que queiramos.
Por vezes, temos de aceitar que aquele lugar não é para nós, aceitar que aquelas pessoas não são tão nossas amigas como pensávamos, aceitar que aquela deceção amorosa realmente aconteceu e não vamos mudar, o que aconteceu só porque amamos aquela pessoa.
Aceitar dói, especialmente quando envolve perdas ou mudanças inesperadas, mas também aceitar envolve maturidade emocional e consciência, pois aceitar é reconhecer a realidade tal como ela é.
Entre resistir e aceitar o ser humano aprende a equilibrar-se, até porque sabemos que há coisas que nunca vamos mudar e aceitar é a única resposta depois de tentarmos resolver, mudar ou até mesmo salvar algo que mesmo que custe aceitar, sabemos que não podemos mudar.
Nem sempre é fácil aceitar, mas é essencial para seguir em frente, mesmo quando parece que o mundo vai acabar se nós apenas aceitarmos aquele facto, aceitar aquele término, aceitar sair de casa para o nosso bem, aceitar que o amor entre os pais acabou, aceitar mudar de país e deixar a família para trás para conseguir seguir os nossos sonhos.
Aceitar o que nos acontece pode ser o primeiro passo para encontrar paz interior, aceitar que não foi o fim do mundo numa desilusão, aceitar que há pessoas com problemas maiores que os nossos, aceitar que há pessoas que desejam ser como nós e ter uma vida como a nossa, aceitar que tudo passa mesmo se escolhermos o caminho difícil, aceitar que há pessoas em camas sem conseguir se levantar enquanto nós passámos a vida nas redes sociais ou a reclamar de tudo, aceitar que há pessoas que não tem o direito de estudar, viver, ter casa ou até mesmo comer mas continuam a viver e a lutar pelos seus direitos.
Há momentos na vida que aceitar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade, por exemplo, aceitar mudar de casa, aceitar um emprego, aceitar ir para um psicólogo, aceitar ser ajudado, aceitar trabalhar num local que não ambicionamos, aceitar continuar os estudos mesmo que seja exigente e cansativo e mais difícil ainda, aceitar ficar vivo e a lutar quando achamos que não temos mais motivos para ficar.
A aceitação é um dos maiores passos para a nossa evolução pessoal. Quando aceitamos as nossas diferenças e fragilidades estamos e entender a nossa verdadeira essência. Conseguimos compreender com mais lucidez o mundo, mas na maioria das vezes a aceitação é um processo demorado, muitas vezes dependemos da aceitação dos outros sem entendermos que involuntariamente estarmos a aceitar ser quem os outros querem.
Eu por exemplo, aceitei ser a irmã mais velha presente, pois a minha irmã é doente e sei que independentemente do que os médicos façam ela não vai ter uma vida como a minha.
Tive de aceitar morar com os meus tios e só ver a minha mãe nos fins de semana porque a minha irmã estava internada, tive de aceitar escolher a proteger pois sei que ela é mais frágil do que as outras crianças, tive de aceitar mesmo que doesse deixar os problemas de lado para ter o papel de irmã mais velha, pois eu sabia que os meus pais e principalmente elas precisavam de mim.
A aceitação não é fácil, eu sei bem disso, porque passei anos a achar que a minha irmã não precisava de mim, não queria aceitar que ela tinha aquela doença, porque depois de algum tempo perdi o meu avô, mesmo eu não querendo aceitar ou admitir sabia que tinha medo de a perder, e hoje, finalmente aceitei que o medo não vai embora, ele permanece connosco.
Aprendi a viver com a perda, mas também aprendi que aceitar é crescer."
🌟 Texto de Luana Duarte, 3.º TPA-A:
"No Intervalo Entre o Que Sonhámos e o Que Somos"
"Quando era criança, o mundo parecia mágico e simples, como um desenho colorido onde tudo era possível. As perguntas eram pequenas e as respostas vinham com um sorriso paciente. Havia a sensação de que os adultos guardavam um segredo que, um dia, eu também descobriria. Acreditava-se sem esforço: que portas desenhadas no deserto podiam abrir-se, que o impossível cabia na imaginação.
Hoje, o mundo já não tem essas cores nítidas. Crescemos a ouvir promessas de um futuro brilhante, rápido e justo, mas encontramos corredores longos e expectativas difíceis de alcançar. Disseram-nos que tudo seria possível; ensinaram-nos a sermos eficientes, produtivos, melhores a cada dia. No entanto, entre o que imaginámos e o que realmente somos, abriu-se uma distância difícil de ignorar.
Foi nesse espaço que comecei a questionar o significado de aceitar. Durante muito tempo, pensei que aceitar era desistir, conformar-me com menos do que merecia. Procurava o tal “momento certo” em que tudo faria sentido, como se a vida fosse uma equação destinada a resolver-se sozinha. Mas esse momento nunca chegou. Em vez disso, surgiram dias de cansaço inexplicável, noites inquietas, versões de mim mesma que não reconhecia no espelho.
Com o tempo, percebi que aceitar não é baixar os braços. É reconhecer limites, fragilidades e ritmos próprios. Não somos máquinas programadas para melhorar infinitamente. Vivemos rodeados de discursos que exigem otimização constante — acordar mais cedo, produzir mais, ser sempre melhor — como se a vida fosse um software em atualização permanente. Mas há dias em que simplesmente não conseguimos. E isso não é fracasso: é humanidade.
Aceitar o corpo é compreender que ele nem sempre acompanha as exigências do mundo exterior. Aceitar o tempo é perceber que não existe um ritmo universal; cada pessoa carrega o seu próprio compasso. E é nesse entendimento que começa também a aceitação do outro.
Ao sair de casa para estudar, comecei a observar melhor quem me rodeava. No comboio, via pessoas a conter lágrimas diante do telemóvel; jovens com mochilas pesadas demais; rostos que diziam “está tudo bem” enquanto o olhar revelava o contrário. Percebi que todos transportamos um “eu” invisível, denso, difícil de traduzir. Somos histórias inacabadas, cheias de capítulos que os outros nunca chegam a ler.
No entanto, apesar de sabermos que partilhamos a mesma condição humana, parece que a aceitação do outro está a regredir. A diferença, que devia enriquecer, transforma-se facilmente em ameaça. Menos de 1% do nosso código genético nos distingue, mas é a partir dessa pequena variação que se constroem muros, preconceitos e exclusões. Vivemos num tempo em que se simplifica o outro em rótulos rápidos, como se uma etiqueta pudesse explicar a complexidade de uma vida.
Aceitar o outro não significa justificar tudo. Existem limites e responsabilidades. Mas não pode significar, transformar pessoas em categorias fixas ou vidas em números descartáveis. Generalizar rouba dignidade. Reduzir alguém à diferença é ignorar tudo o que nos aproxima.
Custa-me pensar que talvez não tenhamos aprendido o suficiente com a história. Continuamos a dividir o mundo entre “nós” e “eles”, como se a humanidade pudesse ser distribuída de forma desigual. É aqui que a aceitação deixa de ser apenas uma atitude pessoal e se torna um compromisso: recusar a ideia de que existem vidas que valem menos.
No fim, aceitar é reconhecer que o mundo nunca foi tão simples como o desenho da infância. É feito de avanços e recuos, de luz e sombra. O outro — tantas vezes visto como ameaça — é tão frágil e imperfeito quanto eu. Aceitar não é ignorar injustiças, mas escolher não acrescentar mais violência ao que já pesa.
Talvez seja apenas isto: compreender onde terminamos e onde começa o outro. Saber que não podemos resolver tudo, mas podemos evitar ferir. Que cada encontro, mesmo breve, tem o poder de alterar algo, ainda que por milímetros.
Apesar de tudo, continuo a acreditar que existem espaços onde a humanidade resiste: nos gestos discretos de gentileza, nos sorrisos inesperados, nas mãos que procuram outras mãos. O mundo não é perfeito, mas continua habitável porque insistimos em habitá-lo juntos.
Se a infância me ensinou a procurar portas onde não existiam, crescer ensinou-me a construí-las. Talvez aceitar seja isso: caminhar sem destruir o caminho do outro. No fundo, aceitar é continuar. Nem tudo faz sentido, mas há sentido suficiente para não desistir. E é nessa persistência silenciosa que encontro a forma mais humana de esperança."
🌟 Texto de Maria João Silva, 1.º TGE:
"O Verdadeiro Significado de Aceitar"
"Sempre achei que aceitar poderia ser uma forma de desistir.
Durante muito tempo, acreditei que ser forte era nunca parar, nunca mudar de ideias, nunca recuar. Diziam-me que tínhamos de insistir sempre, mesmo quando as coisas ficavam difíceis. E eu levei isso a sério.
Por isso, continuei.
Continuei mesmo quando já não me sentia motivada. Continuei quando aquilo que antes gostava começou a parecer mais uma obrigação do que outra coisa. No fundo, acho que continuei porque tinha medo de parar e perceber que talvez estivesse no caminho errado.
E isso custa.
O problema é que ninguém nos ensina a aceitar. Ensinam-nos a lutar, a não desistir, a ir até ao fim… mas não dizem o que fazer quando já não faz sentido continuar.
Houve uma altura em que comecei a sentir-me constantemente cansada. Não era só físico, era mais do que isso. Era como se tudo pesasse mais do que devia.
E foi aí que comecei a pensar de forma diferente.
Talvez o mais difícil não fosse continuar. Talvez fosse ACEITAR.
Aceitar que nem tudo depende só do esforço.
Aceitar que às vezes as coisas simplesmente não resultam.
Aceitar que mudar de direção não é o fim do mundo.
No início, não foi fácil.
Parecia que estava a falhar. Como se estivesse a desistir de alguma coisa importante. Mas, ao mesmo tempo, continuar também já não fazia sentido.
Então parei.
E, para ser sincera, não senti fracasso. Senti alívio.
Foi estranho perceber isso, mas também foi importante. Fez-me perceber que aceitar não é ser fraca. É ser honesta comigo própria.
Hoje vejo as coisas de outra forma.
Aceitar não é desistir. É perceber quando já chega. É saber ouvir-nos e ter coragem de mudar, mesmo quando isso não é fácil.
No fundo, acho que crescer também é isto: aprender a aceitar — não porque é mais fácil, mas porque, às vezes, é mesmo o mais certo."